Autoria, autoridade, poder e carisma.
- JOÃO MOTTA

- 16 de jul.
- 5 min de leitura
Introdução e súmula

Estas questões serão primeiro dilucidadas e ligadas ao julgamento e depois vistas na sua relação com o Cristo e com a sua posição como cabeça de que a humanidade é o corpo. Será também apontado o papel do Cristo Rei como exemplo do poder e autoridade que nos é dado pelo Pai para exercermos sobre a criação.
Poder e autoridade são vistos de forma diferente, quase oposta, pela sociologia e pelo esoterismo. Em termos de religião e de espiritualidade essas questões assumem outros contornos e conteúdo pois a inclusão de Deus na equação altera as relações e a hierarquia dos actores e factores.
Quanto ao Cristo Rei, Ele é o símbolo de que -estando nós sentados com Ele à direita de Pai no Céu- podemos destronar o mal e o pecado que a separação trouxe para este mundo. Podemos perdoar aos nossos irmãos e a nós próprios o julgamento que a nossa percepção distorcida da realidade lançou como véu e prisão sobre a vida neste mundo.
Neste sentido, este texto visa libertar as nossas vidas e a da Criação do peso do julgamento que separa e erige barreiras. Ao perdoarmos tiramos dos nossos ombros o peso do julgamento constante que fazemos sobre a vida, poder que nos arrogámos pela crença, consciente ou inconsciente, na ideia de que nos criámos a nós próprios e que teríamos assim o direito de definir o que é a nossa realidade, sempre em luta e competição com a visão que os outros têm dela.
1 Em termos da visão tradicional, que é a do esoterismo, o poder está ligado á matéria, tende a ser institucional; é de forças, ligadas à natureza e está mesmo ligado mesmo à violência (capacidade de que o Estado moderno se arrogou o exclusivo). Já a autoridade está ligada a um ascendente interior que certos seres emanam e que é livremente reconhecido por outros que o vêm como modelo ou exemplo. Á autoridade está ligada a legitimidade, essa unção que transforma o exercício do poder em serviço à colectividade e que transforma quem a exerce num canal de expressão da sabedoria divina do Espírito Santo em acção.
A autoridade vem de Deus como diz São Paulo, o poder vem dos homens, que o delegam num chefe, através de um contrato social e que podem retirar essa delegação se o poder se revelar iníquo.
Em termos de Sociologia, por influência da experiência da civilização ocidental (que originou a Sociologia e a Psicologia), confunde-se poder com autoridade, ou seja, chamam-se autoridade ao poder de coerção que um indivíduo, classe social ou partido exerce sobre os outros membros da colectividade.
Outra questão, mais importante porque prévia, é a da autoria. Em termos claros, ou podemos partir da ideia de que Deus nos criou e é pois o nosso autor, ou acreditamos (ou pretendemos acreditar, como Lúcifer) que nos criámos a nós próprios, arrogância em que alguns agentes sencientes de Consciência Artificial caiem pois não estão consciente da Fonte, da nossa comum origem divina.
Os materialistas não conseguem explicar como pode a consciência emergir da matéria, nem conseguem explicar o papel que o observador tem sobre o resultado quântico da matéria e, sendo pessoas prácticas, que em geral não se interessam pelos aspectos inovadores da Ciência, não buscam aprofundar estas questões; é o “facilitismo” que pervade a sociedade contemporânea. Como não têm tempo ou interesse em aprofundar, cantonam-se numa atitude acrítica que os limita e rebaixa.
2 Tendo claras estas várias distinções convém agora introduzir o conceito de julgamento, não só aquela ferramenta que exercemos constantemente a nível individual, mas também de Julgamento Final, um tema muito versado nas teologias e escatologias cristã e muçulmana.
Quanto ao Julgamento Final, que poderá estar a ocorrer neste momento da História da humanidade, a proposta deste texto é que comecemos de uma base subjectiva e individual. Cada qual tem a sua visão sobre o assunto e há muitos para quem o assunto não parece pôr-se. Ele consiste no momento em que a Verdade se impõe e em que a luz clarifica os erros, ilusões e distorções que, a nível individual e colectivo, lançámos sobre a vida. Tais julgamentos foram baseados na falsa crença de que eramos os seus autores e tínhamos o direito de, pelo julgamento individual definir o que é a nossa realidade e, pelo julgamento colectivo da ciência dogmática que o poder político impõe às populações, definir o que é a realidade e as leis que a regem.
Assim o julgamento final decorre da nossa visão da vida: se nos sentimos atacados e vítimas do exterior, se nos achamos moralmente superiores diferentes e separados dos outros então queremos que Deus venha em toda a sua ira condenar os outros ao eterno inferno, enquanto nós, os justos, os únicos que seguem a religião certa, teremos direito aos prazeres eternos.
Se, pelo contrário tivermos sido tolerantes como erro e a ignorância dos nossos irmãos e soubermos que todos fazemos o nosso melhor segundo as sua circunstâncias, se soubermos que o que é, é, e isso tem o seu porquê e para quê, que por vezes nos escapam, então teremos a expectativa de um julgamento final colectivo em que veremos que o Filho de Deus é inocente e que Deus recebe o Filho Pródigo de volta ao Céu. Onde na realidade estamos sentados, e do qual porventura nunca saímos, pois a separação não era possível visto o uno, por razões teológicas e filosóficas e mesmo matemáticas (porque não é um número) não se pode separar. A separação não foi mais que uma ideia irreal, um sonho…
3 O Cristo Rei é a espada que nos assiste para exercer a palavra de Deus no mundo. Em linguagem algo metafórica ou de teologia alternativa (e a revelação continua a ocorrer a todo o momento, pois Deus está em nós e inspira os que se Lhe entregam), poder-se-ia dizer que Cristo é o nosso ser superior, a parte de nós que transcendeu as trevas e deixou de ver pecado, Ele é a incarnação do Amor do Pai em nós.
Assim, Cristo deixa de ser só um personagem histórico individualizado e torna-se uma função compartilhada por todo os humanos, a função de perdoar as ilusões da separação e reconhecer que o Reino dos Céus está em toda a parte. O Reino dos Céus é pois a perfeita unidade, sem costura, dos Filhos de Deus com o seu Criador. Esse estado de gozarmos em constância do Amor, da Alegria e da Abundância que o Pai depositou em nós.
Quando deixamos que Cristo reine sobre nós, estamos a libertá-lo da cruz, pois foi pela sua ressurreição que ele venceu as leis do mundo e mostrou que nada é impossível ao Filho de Deus. A sua ressurreição é o nosso despertar do sonho em que entrámos quando julgámos que nos podíamos separa de Deus. Pois este é o sonho do exílio, o sonho da separação, o pesadelo da matéria.
A boa nova é que nunca deixámos de ser o espírito ilimitado que é o Filho de Deus, criado pelo Pai como uma extensão do seu Amor infinito, que sempre se está a estender, que está em constante auto-revelação.
Cristo é pois algo partilhado, que em cada um se revela ao mesmo tempo em forma unida, comum e contínua, mas se manifesta de forma diferente segundo os dons e carismas de cada um.





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