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A tentação dos corpos - Uma oração ao divino

  • Foto do escritor: JOÃO MOTTA
    JOÃO MOTTA
  • 16 de jul.
  • 4 min de leitura

O corpo é uma máscara que eu inventei para me esconder de Deus. Inventei o  tempo para criar espaço entre mim e Ele.

Mas a verdade, Pai, é que Tu escreves, pensas e crias através de mim. Sou um meio. Sou só um canal transmissor. Do Teu Amor infinito, universal, incondicional, essencial. Da Tua sabedoria.


Sou teu Filho, sou como Tu me criaste, não me posso alterar. Saí, mas regresso. Sou o Filho Pródigo que nunca Te abandonou. Aquele que ainda aqui e agora julga sonhar o sonho do exílio. Ainda julgo que sou culpado, que tenho que pagar para regressar ao Teu regaço, que tenho que fazer sacrifícios para voltar a ser uno, para deixar de sofrer esta separação e esta chaga do tempo, da doença e da mortalidade.

 Eu Te agradeço, Pai, teres mantido o meu lugar no Céu, teres mantido vivas as criações que fizemos em conjunto.


Eu perdoo este mundo que julguei ter criado. Tudo para me vingar de Ti, para mostrar que saberia criar sem Ti. Universos especiais, cintilantes, onde não se sente o passar do tempo. Variedades infinitas… e muito mais…Do mais cruel ao mais sórdido.


Tudo efémero, imperfeito, sem a “cola” do Teu Amor. A cola que tudo une e torna uno.

Mereço melhor. Reconheço que errei, que é melhor criar conTigo. Tenho saudades, muitas, do teu Amor. Só isso dá sentido á minha vida. Aqui é só um labirinto, de espelhos e máscaras. Corpos que parecem opacos nesta luz artificial.


A ideia de me separar de Ti fez que eu gerasse separação em mim. Julguei poder separar a minha mente em mil mentes individuais. Parti-me em mil bocados para diluir a responsabilidade e a culpa, para me esconder melhor de Ti. Diluindo-me e dispersando-me, atomizando-me em partículas cada vez mais pequenas, agora quarcks.


Quando bati a porta, premi o botão do Big Bang, o grande estrondo que ainda é a radiação de fundo deste universo, o eco do big slam, a fúria com que bati a porta na Tua cara. E, como Lúcifer, declarei a tudo e todos que eu era Deus e portanto me tinha autocriado…

Quão temerário fui, insensato, arrogante.


Mas já eram consequências da crença na separação…

Como pude imaginar o impossível? Como pude acreditar nas ferramentas-o tempo e o espaço- que criei para compor a ilusão, para fazer um sucedâneo do eterno e do infinito?

Criei outros para poder dizer que foram eles que bateram a porta do Paraíso, que são eles -os maus- que mantém a separação, eles que me tiraram o Paraíso. Eles que me tiram a paz e o gozo do uno, que questionam que eu tenha sempre razão. Eles com os seus desejos separados e diferentes dos meus. Eles que me roubam tempo, que não obedecem a todos os meus desejos e caprichos.


Por haver tantos deles não há suficiente amor, beleza, energia, dinheiro, recursos, petróleo. Deles me tenho que defender. Cada vez com mais armas e mais fronteiras; com mais conceitos e preconceitos, com mais dissimulação e manipulação. Tudo para os manter à distância.

O que fiz a Ti, julgo que eles me querem fazer a mim…


Mas Tu és sábio e paciente. Só agora começo a suspeitar a Tua infinita subtileza, a admirar a Tua infinita perícia em facilitar e conduzir o meu caminho de regresso. Sim, Pai, perdoo, agradeço, abençoo e dissipo esta gigantesca fantasmagoria a que chamei Universo. Prescindo do tempo e do espaço, as armas e ferramentas da mentira. Já serviram o seu propósito de me ajudarem a despertar deste pesadelo.


Sim, Pai, eu sei que estamos no Céu a fazer a simulação da resposta á minha pergunta sobre a Separação. Sei que tudo isto é um gigantesco pensamento, uma simulação cósmica para eu compreender o que seria a separação. Estamos a ver tudo ao ralenti. Para eu me dar conta da enormidade que desencadeei, do descalabro em que caí.

E Te agradeço que tenhas mantido o meu lugar no Paraíso, que tenhas mantido vivas as criações que fizemos juntos. As únicas que são reais e perfeitas.


Pai, julguei poder criar realidades ilusórias, o agregar das mentiras, a demonstração de que a dualidade seria possível.

Ando por aqui nestes labirintos da matéria, onde o pensamento se coagula. Criei a ideia de energia para servir de intermediária ao pensamento, para o observador colapsar a onda de indeterminação quântica. Para a consciência ver a sua obra no exterior. Para, julgava eu, criar realidade. Criei, com imaginação e afinco, as ideias de processo e intermédio, para assim justificar como imprescindível o uso do tempo e do espaço. E contudo -sinto-o agora- tudo a chuva está a apagar, tudo o vento levou…


 Vejo agora que esta infinidade de corpos que a minha consciência projectou dentro de mim, no ecran da realidade ilusória. Esse ecran onde eu apliquei efeitos especiais para dar a aparência de três dimensões; quando sabia perfeitamente que duas bastavam para visualizar o sonho. Mas insisti na 3D para tornar mais difícil a nossa reunião, para melhor me esconder de Ti, para tornar mais real a ilusão. Julguei ser mais esperto do que Tu. Achei que eras bom demais…


Sim essa é a tentação dos corpos. É o mundo como tentação. Para me esquecer de Ti, para me distrair com mil trivia. Para continuar a julgar que crio para a posteridade. Que deixarei um nome como autor. Mas Tu és a minha autoria. Tudo o resto é o que julguei poder usurpar: a minha falsa identidade, este pseudónimo humano que tomei e esta aparência de corpo físico de que me revesti…

No mundo dos separados me inventei, no mundo dos opacos me constitui. Fazendo fotocópias a que chamei filhos; fazendo obras, literárias, artísticas e e político-sociais para mostrar que também eu podia criar céus provisórios. Que até o orgasmo podia criar, como sucedâneo do Teu Amor. Esse orgasmo onde, por uns segundos, aboli o tempo e o espaço e -sem o saber-  me torno uno conTigo…


Mas sim, Pai, chegou o momento do regresso. Já vi e senti o suficiente. Já sei o que é a separação. Eu Te peço que me tragas de novo junto a Ti. Ao regaço donde nunca saí.

Sei que o desejas, mais ainda do que eu. Eu que vogo á deriva no oceano da memória. Mas que no meu coração ainda guardo viva a glória e o esplendor do Paraíso.

Que se cumpra a tua Vontade, Pai, que ela seja a minha. Que eu beba em Jerusalém das vinhas do Paraíso.

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